21.3.18

“Ali está ele outra vez.”
A rua de cima é considerada a mais escura da minha cidade
Por alguma razão ela me fascina, talvez por ser calma e tranquila, e diferente. Pela janela do meu quarto bate um cheiro a silêncio e uma única voz enigmática que o vento consegue arrastar até aqui.
A minha mãe sempre me disse que era normal todos os anos um maluquinho qualquer, se sentar lá e falar sozinhosobre sensações absurdas e que com isto estávamos a ficar“uma sociedade perdida”.
Para mim eram sempre mais do que palavras. Adquiriam sempre um significado, fosse qual fosse o discurso, mas nunca consegui explicar isso, porque provavelmente ia achar que estava contagiado por alguma coisa fora do comum.
Queria sentir aquela melodia de perto. Rapidamente arranjei uma desculpa e desci.
Passei ao lado daquela rua cinzenta e a alma sentada que vira antes através da janela, estava mais perto de mim e murmurava um som agradável. Parecia um compositor profissional.
Criava um impacto diferente sobre mim e depressa viajei para outro mundo. Não sei quanto tempo tive naquele momento apático, mas o velho já não estava 
Comecei a repetir aquela rotina várias vezes, e as melodias variavam conforme o tempo. Eu continuava sem perceber, porque sempre analisei a situação de longe. Era a única que passava horas de pé ouvir e a reflectir.
Um dia acordei mais cedo e decidi que uma aproximação não iria correr mal.
Desci e lá estava ele, sentado no mesmo sítio, a sorrir. Aproximei-me devagar dando passos conforme os toques dos seus múrmuros. Deveria ter os seus 70 anos, mas com aspecto saudável. 
Senti uma necessidade de falar, sentia uma obrigação de o fazer. Chove tanto, disse-lhe. De imediato interrompeu o meu discurso e mandou-me calar num gesto calmo. Durante uns minutos só a chuva percorria aquela rua intensamente e um suspiro ecoou-a. Não falei.
Durante aqueles minutos moveu a cabeça vezes sem conta como se tivesse a flutuar ao som do vento a apreciar os seus aspectos insignificantes. E estava mesmo. 
Esses minutos deram-me tempo para analisar a situação. Consegui reparar que era cego e de certa forma senti pena. Talvez da sua solidão, ou do mau tempo que caia sobre o seu corpo.
Fiquei a pensar se seria a primeira pessoa que se atrevera a falar com alguém da rua de cima, mas não senti medo por isso.
O velho sorriu e de imediato iniciou uma batida com as mãos sobre um pequeno banco e cantou. Aquela pena que há alguns minutos atrás me percorrera tornou-se em admiração. Era um som maravilhoso e eu era o único espectador. 
Quando decidi perguntar o porquê de tanta solidão, respondeu-me que era o único lugar onde conseguia analisar mais precisamente o som da chuva e do sol. E eu que nem sabia que o sol tinha som.
Não resisti à tentação de perguntar qual o significado daquelas composições.
“Eu componho sobre a vida rapaz.
“Desculpe, mas não consegue ver”, hesitei.
“Mas consigo sentir”.

7.2.17

Hoje escrevo para dizer que já não te amo. Já não quero nem preciso de merda como tu. Hoje escrevo para te definir. Foste um grande pedaço de tormento na minha vida e já não te quero mais perto. Sai daqui e deixa-me deambular sozinha como sempre o fiz. Leva contigo todas as histórias mal feitas e contadas pelo pequeno demónio que tens ai dentro, e vai. Sai daqui. Os anos passam e sinto-me a escalar cada vez mais alto pela vida. Porque nunca o fiz, por ti nem por mim. Talvez esteja na hora de deixar para trás tudo aquilo que já trouxeste outrora, e que infelizmente, eu deixei entrar. Furaste tudo o que havia  para penetrar e levaste toda a minha sanidade contigo. Por isso vai te embora. Deixa o meu amor aqui e desaparece da puta da minha vida. Isso mesmo, ouviste bem. Não preciso de ti. Foi uma dose tão intensa, que só me apetece rir. Consegui partir o que sentia por ti, e desta vez sou quem não te quer mais. Sou quem não te espera nem te precisa. Este é o único sítio que me sinto completa. Deixei histórias para trás que nunca contei a ninguém, e agora estou pronta para devolver mais uma ao segredo dos deuses. Nunca mais te quero abrir, e se algum dia o fizeres, espero estar bem longe daqui. Até nunca, kyle.



10.1.17



Gostava de te encontrar só mais uma vez. Não sabia o poder da tua presenta até te perder em mim. Sabes uma coisa? Sempre corri atrás de tudo sem me lembrar que o mundo pode esperar. Tentei sempre chegar mais longe para ainda me restar tempo de aguentar, e acabou sempre por não ser suficiente. Não sei quanto tempo o tempo tem, mas sei que seja qual ele for tudo chega na sua hora. Aprendi que quanto mais penso em levantar menos o faço. Quanto mais penso em subir um bocadinho, sem dar por mim continuo no mesmo sítio. Se calhar o pensamento é superior à ideia de fazer, e isso é um medo comum. Que afasta os fracos e dá força aos fortes. E por muito que às vezes pareça que não, é possível controlar a mente. É possivel desligar alguns botões sem nunca mais olhar para eles. Não gosto de dependência, mas sei que o tempo que temos com ela nos afasta da vida. Sei que rotina é sinónimo de depressão porque quando algo falha, não há maneira de o repor. Mas é possível destruir isso. É possivel contruir novas barreiras e ficar entre elas, longe do abismo. Gostava de te encontrar mais uma vez, mas hoje aprendi que gosto mais de mim, e isso é maior do que imaginas.

25.9.15


A minha ausência tornou-se um grande problema dentro de mim. Continuo a repelir todas as personagens da minha vida e tornei-me numa alma perdida. Ainda não me encontrei em nenhuma página e sinto-me afastada do mundo. Continuo sem controlar as minhas emoções e os meus impulsos continuam a mudar o rumo desta história. Quanto mais tento alcançar, mais barreiras se penetram nos poros do meu corpo. Não há nada que ninguém possa fazer e isso assusta-me. O coração já fraco de lutar ainda tenta respirar fundo mas já não me sinto. Sinto-me em metade. E estas memórias e vivências são a única certeza de que algum dia fui completa.



9.11.14

Existe em mim um pequeno receio de sentir aquilo que não sinto. Ou aquilo que fingo não sentir. Desta vida já nada mais espero, apenas sento-me e desespero pelo inesperado. Já me afundei no abismo mil e trezentas vezes e não gosto. É frio e escuro lá em baixo. Ou lá e cima. E por onde andei, encontrei alguém mais enterrado que eu, e então calei-me. Nunca teria pensado sobre isto até à altura. Deste lado consigo ver rostos sem sentidos e almas vazias. Receio sentir aquilo que não sinto. Aquilo que observo do outro lado da lua, e me consome a vista de tanta mágoa profunda existente em corpos fracos e estilhaçados. E cega. Por fim acabo por perceber que o que me mata não é aquilo que vejo, mas sim o medo de não ver. De não sentir, nem amar. É uma cegueira constante, que me abala e retira todos os movimentos espontâneos que o meu corpo ainda consegue transmitir fraca e estranhamente. Até que de todos os monstros calados e sérios que voam sobre mim, surgiu um pacemaker para o meu coração. O medo de não ver sumiu com o vento, e este por sua vez trouxe rajadas calorosas para o meu pequeno corpo. Aquele pedaço de história que fiz questão de fechar, reabriu-se em mim como um fôlego e desejo constante, que me aviva a memória e reanima o meu pequeno músculo.   
Leva-me daqui e tira-me do abismo. Leva-me para bem longe do que alguma vez eu poderei encontrar, até porque não gosto de me perder sozinha.


14.10.14


Nunca gostei de funcionar com almas mortas, apesar de nos últimos tempos deambular por entre elas. Apesar de ainda não perceber o porquê deste gosto pelo abismo, penso que ainda não pisei a linha e me encontro mais segura e consciente. Encontrei o equilibrio mais desequilibrado que conheci. E por mais estranho que pareca, é a unica peça que encaixa bem no meu corpo. A última peça que faltava para me sentir em mim e descontroladamente tentada. Consome-me aos pedaços e deixa-me explodir sem tentações. Apetece-me devorar-te.